De sua natureza não ligar ao mundo
a seu redor. Talvez iludido pelas luzes que nele refletiam, dando-lhe destaque,
ignorava o risco. De repente, entre estilhaços e caquinhos, desaba, sem a
cabeça, atingida em cheio pela bola perdida de um chute sem direção. De
instante, gritarias. Fuga coletiva de um lado. De outro, em desespero raivoso,
aos berros, lamenta-se a perda de mais uma vitrina. Dia seguinte, trocados ele
e o vidro, o futebol voltou. Poucos se lembrarão do fato corriqueiro... Apenas mais um manequim.
25 setembro 2017
MANEQUIM
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14 agosto 2017
AMARRAÇÃO (DO BRAZIU)
Deve ser amarração
É mais que maré de azar
A mim, parece quebranto
Praga forte de madrinha...
Fiz consulta ao Pai João
Desculpou-se, mas não explica
Já pulei as ondas no mar
E joguei pinga pro santo
Fiz macumba com galinha
Nada de quebrar a zica
Deve ser amarração
Ou pior! Obra do Cão!
Nem acerto mais no bicho
Nos cavalos um “placê”
To devendo na lotérica
Gaveta cheia de carnê
Só arrumo “bico-mixo”
Luz em casa só de vela
A patroa fica histérica
Quando dá a hora da novela
Até dizem que não presto
Sempre fui um cara honesto
Cumpridor de meu horário
Mas não dá para fingir
O futuro está bem funesto
Que rumo devo seguir?
Não tem nem farol de trem
Indo em sentido contrário
Ao da minha estação
Deve ser amarração!
Basta-me falso discurso
Acreditar em promessa?
Só miragens no deserto
Dia vai melhorar? Carece!
A fome e a dor têm pressa
Cansa-me de tapeação
O que será que acontece?
Por que nunca dá certo?
O braziu não acerta o curso?
Deve ser amarração!
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19 julho 2017
RECEITA PRA SER POETA (proparoxítona)
RECEITA PRA SER POETA
Atingir a perfeita métrica
De precisão matemática
Ou ser assim: meio assimétrica...
Ousar num erro de gramática...
Se ferir por demais a estética
Diga ser licença poética
Versejar é mesmo simbólico
Melhora com tempo e prática...
Ver cenas de diversos ângulos
Pintar pálidas faces de ébano
Rimar fora da sílaba tônica
Sejam ricas, tímidas, cálidas
A causar expressões atônitas
Provocando reações múltiplas
Pruridos pudicos em escândalo
Apontando-o como periférico
Ser na caminhada um nômade
Sangrar espinhos entre pétalas
Extrair das ostras as pérolas
Mentir uma paixão platônica
Penetrar o fundo do âmago
Desnudando a ânima do público
Tal a fugaz luz do relâmpago
Mágica, repetida e sempre única
Subir pelo lado mais íngreme
Construir à fórmula de Angélica
Dar graça a algum drama trágico
A reflexão no riso do cômico
Com lágrimas em lábios trêmulos
Desvendar segredos de Máscaras
Gravar-se nos lenços de Verônica...
Atravessar perene aos séculos
Cuidar não se tornar uma máquina
Criar em doses homeopáticas
Ao faltarem palavras... sem pânico!
Xícara de paz refaz o fôlego
O vazio certamente efêmero
Lembre-se impossível o unânime
Não inveje demais aos célebres
Méritos podem vir só pós túmulo
No testamento, um desejo último
A ser na hora triste o bálsamo:
Um velório com muita música
Parceiros entoem seus cânticos
E inscrevam na sua lápide:
“Passou rápido como um pássaro...
Este não foi rei, nem príncipe
Aqui jaz um poeta... sem rótulos!”
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