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04 março 2010

ENTRE BITUCAS E CHAMNÉS

Não dá mais para divisar chaminés no céu.
Estão abaixo da linha dos arranha-céus.
Arranha-céus?
Isso era na época das chaminés.
Hoje são torres.
Residenciais ou empresariais... Não faz diferença...
Num verdadeiro jogo de xadrez procuro a razão da fumaça que polui a cidade e entope meu pulmão.
Será o escapamento dos carros?
Busco abrigo temporário da fumaça e vejo um bar onde a placa na parede proíbe fumar.
Peço para usar o banheiro e tomar uma água.
Quanto é?
Dois... Um da água, um do uso do banheiro.
Dou cinco e enquanto aguardo o troco vejo a diversidade de maços de cigarro espalhados pelo caixa do estabelecimento.
A placa avisa que não aceitam cartão de crédito para a venda de cigarros.
Procuro a lógica num dilema.
É proibido fumar, mas vende cigarros.
Não aceita cartão, porque se o fumante morrer antes do vencimento, o crédito vira fumaça?
Pego o troco e saio tropeçando nas bitucas da calçada sem lixeiras.
Antes fossem só bitucas.
Tropeço em pedaços de gente.
No limite da divisa de ser ou não ser humano.
Todos abaixo da linha da pobreza dormem embaixo de alguma coisa.
Uma marquise, uma caixa de papelão, um viaduto, nossos narizes.
Quase nem sinto mais o cheiro da fumaça, com a atenção desviada para o cachimbinho que dança na mão do garoto que pede um (centavo, cruzeiro, real) para se alimentar.
Alimentar o vício que lhe impuseram.
Olho para cima e procuro uma chaminé.
Vejo janelas de arranha-céus.
Experimento acenar para uma sacada e ninguém retorna o gesto.
Talvez os cachimbinhos também acenem, mas ninguém lhes vê.
Embarco no ônibus a expelir fumaça.
Desço no Parque arborizado para uma caminhada.
Dizem que o oxigênio limpa organismo.
Mas só sinto gás carbônico.
Chego em casa preocupado.
Melhor relaxar num banho quente... Sentir o stress sair pela fumacinha do calor do chuveiro... Melhor ainda: Uma sauna!
Na parede da sala, antes de ligar a TV e ver que o governo está muito preocupado em acabar com o tráfico, observo a velha foto com uma antiga paisagem.
Ao fundo da avenida arborizada, bem ao fundo havia uma única chaminé.
Prestando mais atenção, havia crianças brincando pela rua e nenhum carro estacionado.
Não deve ser foto.
Deve ser a imaginação do pintor.
Adormeço.
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Jorginho, o assunto foi fumaça...
E hoje tem o Botafogo, hein!

11 fevereiro 2009

VAMOS CURTIR UM NARGUILE?



Outro dia, no salão de jogos de um prédio, vi um garoto, de uns dez anos, com um aparelho estranho nas mãos, aspirando fumaça.
Assustei-me!
Na minha imodesta ignorância, penalizei-me ao imaginar sofresse de alguma doença pulmonar e aquilo fosse um vaporizador, um respirador artificial.
Não era!
Entre risinhos, explicaram-me que era o Narguile...
Até eu entender o nome, o aparelhinho já havia passado por outras duas bocas adolescentes.
Isso não faz mal, emendou o interlocutor que me explicou.
De onde saiu isso, retruquei.
Costume árabe. Você não assistiu o Clone?
Pensei na ovelha Dolly, mas ele se referia a uma novela da Venus Platinada, exibida no final do século passado - dito assim, parece mais antiga, nostálgica.
Essas macaquices dos fãs, pensei.
Vestimentas imitando viúva Porcina não faziam mal à saúde, mas o “narguile da Jade” faz.
Não avançarei na seara da discussão técnica, mas é claro que qualquer alteração constante na temperatura interna do corpo faz mal às células degenerando-as e destruindo-as, ocasionando um câncer.
O produto faz tanto mal que mesmo em países atrasados em saúde pública como o braziu sua venda é proibida a menores.
Enquanto eu fazia minha cara de “ah! é”, ia observando o brinquedo passando de boca em boca.
Rodava mais que cuia de chimarrão em roda de gaucho.
Será que os adolescentes sabem o que é herpes?
Deviam ser informados que em países onde o uso do Narguile é acentuado, existe um alto risco de transmissão de hepatite A, herpes e tuberculose.
Meu interlocutor entendia do assunto e animou-se.
Não ligue, não! Tem diversos sabores. Pêssego, maçã-verde, coco, flores e mel, disse-me entusiasmado.
Meio sem jeito, perguntei se não seria mais seguro e salutar comer o pêssego e a maçã-verde, tomar a água do coco, sentir o perfume das flores e tomar uma colher de mel?
Ele riu de minha chatice inquisitiva e explicou que a água que vai dentro purifica e dissolve a fumaça.
Minha cara deve ter sido a de “não acredito!”.
Fui ler sobre o assunto.
A água potencializa a fumaça e amplia o mal ao dissolver as toxinas.
Estas podem, óbvia e efetivamente, causar câncer de pulmão, doenças cardíacas, tuberculose, herpes, hepatite, infarto, pneumonia e disfunção erétil.
Sem contarmos o risco de algum maldito traficante infiltrar-se no grupo e colocar uma dosezinha de crack, às escondidas, no brinquedinho.
O que posso fazer ante a publicidade midiática que divulga esses vícios?
Só lembrar, agora modestamente de verdade, que provavelmente um dia o garoto precise realmente de um respirador artificial, face aos danos que lhe causarão o uso do tal de Narguile...
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Jorginho! Tem serviço contra a sapaiada e a população lá de Mogi Mirim está brava.
Com razão!
O prefeito aumentou em 13% o preço da passagem do ônibus na cidade...
Jorginho! Num deixa eles descontar em nóis que nóis num quer levar fumo.
Nóis num é Narguile...