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29 agosto 2019

QUEIMAÇÃO

QUEIMAÇÃO

Amazônia era legal,está se tornando virtual,
Pouco a pouco chegando ao fim

Fogo corre pelo chão, Pajé se desespera
Queima em brasa o terreiro do Avá Canoeiro
Cerra os olhos para não ver o fogareiro
Incêndio no rio ameaçava Anhanguera 
Sem casa, sem Floresta, sofre o guerreiro
Corrida sem destino de intocadas raças
Busca, em vão, pelas trilhas, não há caças

Amazônia era legal, está se tornando virtual,
Pouco a pouco chegando ao fim

Revoada sem destino, passa o passaredo
Asas e bicos queimados, mortos de medo
Jauaperis, Yanomanis, Arawetés
No Javaés não tem mais Tucunarés
Xô Caburé, amarelinho, andorinhão,
Xô Cardeal, araponga, arara, azulão
SOS Tupã e deuses de todas as fés

Amazônia era legal, está se tornando virtual,
Pouco a pouco chegando ao fim

Tum, tum, tum... acelerados os corações
Será que o Negro desviará do Solimões?
Foi o Boto... Foi o Boto... Sedutor de cunhantãs
A mata perdendo o verde... Vingança dos céus
Anhangá sopra línguas de fogo pelas manhãs
Queima igual Sodoma, de qual pecado serão réus
Xô Patativa, xô sanhaçu, choroso canto do Uirapuru

Amazônia era legal, está se tornando virtual,
Pouco a pouco chegando ao fim
Araguaia, Tapajós,Tocantins, Xingu
Rios morrendo, onde viverá Pirarucu,
Sem pássaro no céu, lago sem tracajá
Tristeza no Jawary, silencia o Boi-Bumbá
Não tem mais Caprichoso, adeus Garantido
Veio a queimação, cantar perdeu o sentido
Xô Figuinha, xô flautim, xô pequeno curumim
Amazônia era legal, está se tornando virtual,
Pouco a pouco chegando ao fim
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https://www.recantodasletras.com.br/poesias/6732133

24 setembro 2010

NASCIMENTO DA SABIÁ

Hoje bateu asas e voou vencendo os limites do quintal.
Estávamos em vigília, desde o começo do mês passado, quando percebemos os primeiros sinais da formação do ninho nos galhos do limoeiro.
Graveto ao graveto, a mãe foi dando a forma necessária para receber os três ovinhos, que cuidadosamente empurrava para baixo das asas, no aquecimento necessário.
Os sabiás precisam de treze dias para serem chocados.
A primeira tristeza.
Um ovo quebrado no chão.
Torcer para não ter chuvas fortes, os predadores não descobrirem, uma rolinha não se intrometer.
As danadas das rolinhas invadem ninhos alheios, jogam fora os ovos de outros pássaros e colocam os seus para serem chocados.
Numa das saídas da ave-mãe, conseguimos ver os dois ovinhos meio azulados.
Contagem regressiva dos dias: Dez, nove, oito...
Na data zero, ansiedade.
Será?
Acho que sim, pois a mãe voltou com comida na boca e ficava arisca quando passávamos por perto.
Numa dessas saídas, a curiosidade fez que tirássemos fotos do ninho.
Um dos ovos brotara.
Ele estava ali.
Pedacinho de ser vivo, indefeso.
A mãe nervosíssima grita para que fiquemos longe.
Como impedir a curiosidade diária?
Um biquinho esperando comida, a pelugem nascendo, um crescimento lento.
E a sabiá gritando do muro: Saiam daí!
Os afazeres do dia a dia na cidade, quase nos fazem esquecer que é ainda possível, no meio de tanto cimento e poluição, nascer uma sabiá num limoeiro de fundo de quintal.
Ontem, ele esticou o pescoço e ao tentar voar, caiu do ninho.
A mãe desesperada e ciosa conseguiu conduzi-lo para debaixo de um vaso.
Dia de aflição!
Haveria predadores urbanos?
Gatos?
Olhei dezenas de vezes para conferir se ele estava ali.
Acho que quase ouvi a mãe enciumada gritando: Sai daí, essa função é minha!
Hoje ele estava sobre o vaso.
Parecia esperar as últimas fotos.
Um salto para o muro.
Outro para o telhado do vizinho.
E afinal, arriscou o vôo definitivo para a liberdade.
A mãe, cuidadosa, ciente do cumprimento da missão determinada pela natureza, voou atrás.
Estava completo mais um ciclo da vida.
Será que virá me visitar?

08 dezembro 2009

CHUPIM VIRA BOSTA

Apesar das notas baixas escolares em zoologia aérea, sempre tive atração e curiosidade por pássaros.
Creio que cultivada pelo fato de na infância ver pessoas colecionarem pássaros aprisionados.
Com meu amplo desconhecimento ecológico, achava bonitos os canários da terra e belgas, cardeais, periquitos, tuins presos que coloriam o viveiro de um vizinho...
Mea culpa, mea culpa, mea culpa...
Felizmente, hoje tenho outros conceitos sobre pássaros.
Tomei consciência sobre os maus tratos e os riscos de extinção de muitas aves e agora só tento manter aprisionadas em meu bolso algumas araras, que, apesar de meus esforços, insistem em escapar...
Logo, logo também devem entrar em processo de extinção á semelhança dos beija-flores, substituídos pelas moedas por determinação do Banco Central...
Virarão peças de colecionador.
Infelizmente, uma espécie, que deveria se extinta ou viver presa, aumenta velozmente sua população em “terras brazilis”.
O chupim.
Detestam ser chamados assim.
Se chamar pelo outro nome, vira bosta...
Calma!
Vira bosta é um dos nomes pelo qual é conhecido popularmente o popular “Molothrus bonariensis”.
É meio confuso, mas tem lógica.
Onde o chupim se enfia vira bosta...
Olhe ao seu redor!
Pode procurar que tem um chupim perto de você.
Procura que tem.
Se não encontrar, sintonize a televisão.
Alguma emissora vai noticiar sobre algum chupim.
Preste atenção que às vezes usam outros nomes, dependendo do local do país.
Nem chocar seus ovos os danados fazem.
Aplicam, entre outros, o “conto do ovo”. Põem seus ovos nos ninhos dos Zonotrichia Capensis, o Tico-tico, mesmo que seja no quintal da Igreja, deixando o vigario que nem te conto...
Deixam os ovos para os outros pássaros chocarem, enquanto ficam “saracoticoticoando” de um lado para outro virando bosta...
Chupinzinho não é mamífero, mas, por analogia, pode-se dizer que desde o nascimento mama em tetas alheias.
Os chupins maiores, considerados uma praga agrícola, invadem propriedades rurais para comer arroz que outros plantaram ou buscar comida nas fezes de outros animais.
Na zona urbana catam migalhas em diversos locais públicos.
Geneticamente é preto-azulado, mas muda de cor. No braziu, hoje em dia, tem crescido a quantidade de pássaros de cores vermelhas.
Por mais enxotado seja, sempre tenta dar um jeitinho de voltar...
Faz carinha de piedade e canta baixinho e tenta seduzir a fêmea, via de regra.
Promete que ficará quietinho, mas rapidamente recomeça a comer pelas beiradas e se torna novamente uma praga difícil de se livrar.
Como a cadeia ecológica não tem predador natural para esse improdutivo ser, para que o crescimento da espécie não gere um desequilíbrio ecológico irreversível a solução encontrada por produtores rurais são as armadilhas e o veneno.
Um alerta!
Não se deve confundir o chupim com o falcatrua, outra ave existente em profusão pelo braziu afora e que até pouco tempo era considerada ave símbolo do país.
O chupim jamais será ave símbolo.
Ao menos declaradamente, pois vivem na moita.
Encontrou algum agora, não é mesmo.
Fique de olho que ele vai tentar se aproveitar de você.
Depois não diga que não avisei.