24 setembro 2010

NASCIMENTO DA SABIÁ

Hoje bateu asas e voou vencendo os limites do quintal.
Estávamos em vigília, desde o começo do mês passado, quando percebemos os primeiros sinais da formação do ninho nos galhos do limoeiro.
Graveto ao graveto, a mãe foi dando a forma necessária para receber os três ovinhos, que cuidadosamente empurrava para baixo das asas, no aquecimento necessário.
Os sabiás precisam de treze dias para serem chocados.
A primeira tristeza.
Um ovo quebrado no chão.
Torcer para não ter chuvas fortes, os predadores não descobrirem, uma rolinha não se intrometer.
As danadas das rolinhas invadem ninhos alheios, jogam fora os ovos de outros pássaros e colocam os seus para serem chocados.
Numa das saídas da ave-mãe, conseguimos ver os dois ovinhos meio azulados.
Contagem regressiva dos dias: Dez, nove, oito...
Na data zero, ansiedade.
Será?
Acho que sim, pois a mãe voltou com comida na boca e ficava arisca quando passávamos por perto.
Numa dessas saídas, a curiosidade fez que tirássemos fotos do ninho.
Um dos ovos brotara.
Ele estava ali.
Pedacinho de ser vivo, indefeso.
A mãe nervosíssima grita para que fiquemos longe.
Como impedir a curiosidade diária?
Um biquinho esperando comida, a pelugem nascendo, um crescimento lento.
E a sabiá gritando do muro: Saiam daí!
Os afazeres do dia a dia na cidade, quase nos fazem esquecer que é ainda possível, no meio de tanto cimento e poluição, nascer uma sabiá num limoeiro de fundo de quintal.
Ontem, ele esticou o pescoço e ao tentar voar, caiu do ninho.
A mãe desesperada e ciosa conseguiu conduzi-lo para debaixo de um vaso.
Dia de aflição!
Haveria predadores urbanos?
Gatos?
Olhei dezenas de vezes para conferir se ele estava ali.
Acho que quase ouvi a mãe enciumada gritando: Sai daí, essa função é minha!
Hoje ele estava sobre o vaso.
Parecia esperar as últimas fotos.
Um salto para o muro.
Outro para o telhado do vizinho.
E afinal, arriscou o vôo definitivo para a liberdade.
A mãe, cuidadosa, ciente do cumprimento da missão determinada pela natureza, voou atrás.
Estava completo mais um ciclo da vida.
Será que virá me visitar?

3 comentários:

Anônimo disse...

Que lindo! Que bom que vc. ainda consegue perceber essa maravilha da natureza,no seu quintal!Tomara que ele volte,assim teremos mais histórias bonitas!
Abraços.

Mirian Martin disse...

Puxa, até fiquei esperando mais fotos! Muito legal!

Uma vez caiu um beija-flor no meu quinta. Eu fiz um ninhozinho para ele e dava água com mel de rosas. Sei lá se isso é alimento para beija-flor, mas funcionou, até o bichinho conseguir voar. Toda vez que ele tentava ia parar quase na boca da minha cachorra.
Um dia ele conseguiu e no dia seguinte voltou! :) Muito lindo!

Enio Luiz Vedovello disse...

Uma história maravilhosa,Pedro!
De fato, com a correria do dia-a-dia, com todo o concreto e poluição à nossa volta, temos a tendência a nos esquecermos que a natureza não pode ser assim tão facilmente dominada. E que mesmo no meio desta cidade louca, pode haver um pequeno sabiá nascendo nos galhos de um limoeiro.
Gostei muito de ler, esta história cabe bem em um projeto que ando pensando, para depois de restabelecer o Reflexões. Volto a falar no assunto.
Abraços!