14 agosto 2017

AMARRAÇÃO (DO BRAZIU)



Deve ser amarração
É mais que maré de azar
A mim, parece quebranto
Praga forte de madrinha...
Fiz consulta ao Pai João
Desculpou-se, mas não explica
Já pulei as ondas no mar
E joguei pinga pro santo
Fiz macumba com galinha
Nada de quebrar a zica

Deve ser amarração
Ou pior! Obra do Cão!
Nem acerto mais no bicho
Nos cavalos um “placê”
To devendo na lotérica
Gaveta cheia de carnê
Só arrumo “bico-mixo”
Luz em casa só de vela
A patroa fica histérica
Quando dá a hora da novela

Até dizem que não presto
Sempre fui um cara honesto
Cumpridor de meu horário
Mas não dá para fingir
O futuro está bem funesto
Que rumo devo seguir?
Não tem nem farol de trem
Indo em sentido contrário
Ao da minha estação
Deve ser amarração!

Basta-me falso discurso
Acreditar em promessa?
Só miragens no deserto
Dia vai melhorar? Carece!
A fome e a dor têm pressa
Cansa-me de tapeação
O que será que acontece?
Por que nunca dá certo?
O braziu não acerta o curso?
Deve ser amarração!

19 julho 2017

RECEITA PRA SER POETA (proparoxítona)

RECEITA PRA SER POETA

Atingir a perfeita métrica
De precisão matemática
Ou ser assim: meio assimétrica...
Ousar num erro de gramática...
Se ferir por demais a estética
Diga ser licença poética
Versejar é mesmo simbólico
Melhora com tempo e prática...

Ver cenas de diversos ângulos
Pintar pálidas faces de ébano
Rimar fora da sílaba tônica
Sejam ricas, tímidas, cálidas
A causar expressões atônitas
Provocando reações múltiplas
Pruridos pudicos em escândalo
Apontando-o como periférico

Ser na caminhada um nômade
Sangrar espinhos entre pétalas
Extrair das ostras as pérolas
Mentir uma paixão platônica
Penetrar o fundo do âmago
Desnudando a ânima do público
Tal a fugaz luz do relâmpago
Mágica, repetida e sempre única

Subir pelo lado mais íngreme
Construir à fórmula de Angélica
Dar graça a algum drama trágico
A reflexão no riso do cômico
Com lágrimas em lábios trêmulos
Desvendar segredos de Máscaras
Gravar-se nos lenços de Verônica...
Atravessar perene aos séculos

Cuidar não se tornar uma máquina
Criar em doses homeopáticas
Ao faltarem palavras... sem pânico!
Xícara de paz refaz o fôlego
O vazio certamente efêmero
Lembre-se impossível o unânime
Não inveje demais aos célebres
Méritos podem vir só pós túmulo

No testamento, um desejo último
A ser na hora triste o bálsamo:
Um velório com muita música
Parceiros entoem seus cânticos
E inscrevam na sua lápide:
“Passou rápido como um pássaro...
Este não foi rei, nem príncipe
Aqui jaz um poeta... sem rótulos!”

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11 junho 2017

FLASHES DO BRAZIU (cordel)




Puxa pena sai galinha
Assim disse o ministro
Todo cheio de razão
O Brasil anda sinistro
Nosso trem saiu da linha
Perdeu seu itinerário
Um sete a um no Mineirão

Legislativo e executivo
Vírus no princípio ativo
Dá pra curar na eleição
O que dizer do Judiciário?
Se todo dia um notável
Explica o inexplicável
Rasga a Constituição

Manchete do noticiário
PF leva pra prisão
Vereador e deputado
Que fizeram roubalheira
Basta fazer a delação
Por uma tornozeleira
Pronto! está perdoado

São tantas formas de fraudes
Parecem atacar de enxame
Fazem cara de vexame
Corrupção no país inteiro
De Brasília aos arrabaldes
Do rico Rio de Janeiro
Aos fundões de Limoeiro

Faz de tudo a quadrilha
Paga implante de cabelo
Sustenta a pensão da filha
Chegava fim de semana
Presidente ia pra Havana
Certa alergia ao ar de Cuba
Vice pra Comandatuba

Apartamento em Miami
Avião grátis pra Bahia
Jantares finos em Paris
Presentinhos pra Madame
Foi herança da titia
Contas na Suíça? Nem sabia
Vem com desculpa o infeliz

Homem bão, o Mineirinho
Pôs em cana sua mana
Mas por que somente ela?
O avião era do Perrela
Não tem fim esse novelo...
Tem mais... muito mais
Basta abrir os jornais

Folhear uma revista
Tem a grana pro artista
No sítio do tio a pista
O tríplex lá da praia
Reformas em Atibaia
Presente do Leozinho
Já dei toda explicação

Ainda surge na televisão
Confessa, sem mais aquela
Roubei, mas só um pouquinho
Agora, saia de meu caminho
Chama a pizza e o vinho
Ao povão fique a sequela
Braziu não tem solução!