16 abril 2017

LAVA-RÁPIDO E AS PROPINAS CELESTIAIS


Reza a lenda que encontraram meu nome numa lista de "relação-premiada de um Lava-Rápido".

É mentira. Pedia até Nota Fiscal Paulista.

Lavava, sim, em tempos passados, meu carro, quase de graça. Brinde declarado de um posto de gasolina. Bastava encher o tanque com no mínimo vinte litros de combustível. Se fosse álcool, não tinha direito ao pretinho no pneu.

Questionei e respondeu-me o frentista: A esmola não pode ser demais, senão até eleitor desconfia. Mas, se o senhor quiser eu passo o produto.

Cabe ressaltar que o posto, apesar de ter um monte de bandeirinhas de clubes de futebol pelas paredes, não tinha nenhuma da Petrobrás.

Portanto, até pela falta de bandeirinha, não via nenhum impedimento na lavagem.

O rapaz fez rápido o serviço, como convém nestas situações.

Considerando que todo trabalhador merece justa compensação, mas também pelo “pretinho no pneu” além, ofereci-lhe algumas moedas. Nem perto de trinta. Quase todas de valor inferior a cinquenta centavos, que incomodavam no bolso.

Cabe neste momento declarar que nenhum daqueles centavos fora desviado dos cofrinhos de meus filhos. Essas coisas, sabe... tipo assim..., a nível de... sonegação de mesada.

E eu podia fazer isso.

Vice-diretor financeiro lá de casa, com direito a dizer sim.

Mas, não!

Havia algo maior.

O frentista do posto tinha uma memória de elefante.

Negou-se a pegar as moedas e foi falando: “O senhor não é o Patriarca de “Apóstolos de Pedro”? Ao senhor tenho apenas que agradecer! É um dever para mim colaborar com sua seita”.

Entre temeroso e orgulhoso assenti. Temeroso que fosse uma pegadinha e orgulhoso por mais alguém acreditar no Apostolado.

O rapaz prosseguiu, para desespero dos demais premiados pelo Lava-Rápido: “Homens de igrejas são do bem. Oferecem milagres, perdão, riquezas, não é mesmo”, indagou sorrindo o jovem.

“Pena que eu não tenha como pagar o dízimo para receber todos aquelas coisas em troca”, prosseguiu.

Agradeci ao rapaz e segui meu rumo.

Essa é a verdade!

Se esse rapaz foi pego na operação da polícia federal que lacrou o posto por adulteração de combustível e está me delatando, saibam que é tudo mentira essa história de receber propina para perdoar pecados.

Nunca prometi isso.

Pelos outros não respondo.

15 março 2017

O TIRO NO PÉ DE CASTRO ALVES FOI ACIDENTE? O amor de Cecéu e a Dama Negra




O acidental tiro no pé é versão oficial.
Quem acompanhava Castro Alves na fatídica tarde de 11. Novembro.1868, no bairro da Mooca – ou Várzea do Brás?
Pesquisas indicam que para Cecéu não havia limites quando o assunto era a conquista.
Sobre a grande paixão Eugênia Câmara, encontra-se:
... "Eugênia era dez anos mais velha que Castro Alves e temia viver a história de amor”...
...”Em 1866, após um longo período de indecisões e recuos, que nunca soube se eram meus ou dela, finalmente conseguiu arrancá-la do empresário Furtado Coelho, com quem vivia e levou-a junto com a filha, para morar com o poeta num subúrbio do Recife”...
...”A vaidade do poeta incomodava a atriz. O relacionamento era conturbado”... ...”Tudo seria perfeito, não fossem as cada vez mais constantes desavenças com Eugênia. Cenas violentas, ciúmes, brigas, precárias reconciliações. Sopravam histórias de adultério”...
...”Eugênia retorna ao palco e as brigas por ciúmes se sucedem”...
...”Eugênia o abandona definitivamente”...
...”Angustiado e deprimido, Castro Alves para de ler e escrever, somente passeia e vai à caça, ainda que não disparasse nem um tiro"...

Será que foi acidente ou um tiro de algum enciumado rival?
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Castro Alves

Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847 e era alto, forte, esbelto, sensual, elegante e vaidoso. Usava roupas pretas, colocava óleo nos cabelos, pó de arroz no rosto e dizia, na frente de um espelho: "Tremei, pais de família! Don Juan vai sair."
Em 1862 ingressou na Faculdade de Direito de Recife. Mau estudante. Antes de ser “calouro”, já era notado como poeta.
Em Recife, Castro Alves, o Cecéu, com 15 anos e longe do pai, é dono do seu nariz. Inteira liberdade, no bairro da boémia - Soledade. Abandona a república de estudantes para ir viver com Idalina - a Bárbara da sua poesia Os Anjos da Meia-Noite, que o aconchega em sua cama, em uma casa alugada na rua do Lima, no bairro de Sto. Amaro.

Surge Eugênia

O idílio com Idalina teve a duração de um ano, apenas.
Eugênia Infante Câmara chegara ao Rio de Janeiro em 1859, levada pelo artista e empresário Furtado Coelho.
Em 1863: Apaixona-se pela atriz.
Quem poderia resistir ao maior poeta do Brasil?
O poeta frequentava o Teatro Santa Isabel e conhece Eugênia e cai perdidamente de amores.
Eugênia Câmara, a Dama Negra, atriz portuguesa que, de forma gaiata, domina o palco. Fora casada com o ator Furtado Coelho, do qual tinha uma filha pequena.
Nada impede os avanços do Cecéu, adolescente sedutor.
Aos 16 anos, imberbe e apaixonado, o poeta jamais levaria em consideração alguns fatores que poderiam pesar contra tal escolha:
Sua musa era dez anos mais velha que ele, tinha se casado antes (com o ator Luís Cândido Furtado Coelho) e possuía uma filha. Além disso, tendo se separado do marido, era a amante de um rico português chamado Veríssimo Chaves. 
Os 10 anos mais do que o poeta, também não importaram à Dama Negra.
Ela não se esquiva do romance que desponta, adiando apenas a florada.
Para Castro Alves, Eugênia era, além de bonita, uma mulher experiente e possuidora de uma mentalidade muito aberta. Para a atriz, representar a fonte de paixão de um jovem poeta, charmoso e genial, era algo que ela gostava.
Eugênia da Câmara, a primeira atriz da Companhia de Duarte Coimbra, seria, de fato, fonte do seu amor. O poeta, com um sorriso nos lábios, um verso ou um convite para fugirem, sempre estava na plateia a cortejá-la. 
A grande e fecundante paixão por Eugênia Câmara percorria-o como corrente elétrica, inspirando alguns dos seus mais belos poemas de esperança, euforia, desespero, saudade. Outros amores e encantamentos constituiriam o ponto de partida igualmente concreto de outros poemas.
Em 1866, morre o pai e, pouco depois, iniciou a apaixonada ligação amorosa, tornando-se amante de Eugênia Câmara. A atriz concorda em sacrificar a carreira. Tornam-se amantes e convence-a a fugir com ele para a Bahia. Mudam-se para a chácara Boa Vista, perto da localidade de Tejipió. Entusiasma-se pela vida teatral.
Em 1867, o poeta abandona o curso de Direito, embarcando com Eugênia para Salvador. Nesta cidade, mesmo tendo sido muito bem recebido por parentes e amigos, o jovem não quis se hospedar com Eugênia na casa da família, já que vivia com ela uma situação pouco ortodoxa para a época. Foram morar no Hotel Figueiredo, no antigo largo do Teatro, hoje a Praça Castro Alves.
Os rumores da vida privada do casal se espalhariam pelas vias públicas. Aonde já se viu um rapaz de boa família, aos 20 anos de idade, ter como amante uma atriz cômica de 30 anos, já separada do marido e mãe de uma filha?
 Enquanto isso, no Teatro São João, Eugênia desempenha o principal papel feminino do “Gonzaga”. Sucesso, consagração do autor em cena aberta, embora as senhoras da capital baiana torcessem o nariz à ligação do poeta com uma “cômica de má vida”.
Salvador era acanhada a vida lenta e ele tem pressa, muita pressa.
Em Fevereiro de 1868 Castro Alves e Eugênia partem para o Rio de Janeiro.
Em Março de 68, viajam para São Paulo, onde ele requer matrícula no 3º. Ano de Direito.
Talvez pela tuberculose a minar os seus pulmões, talvez pelo arrefecimento do amor de Eugênia, surgem as contrariedades. Eugênia, a Dama Negra está a envelhecer e o poeta corre em busca da juventude, erotismo, aventuras várias.
Devido ao grande ciúme sentido por ambas as partes, o casal viveria uma relação intensa e atribulada.
Em setembro de 1868, Eugênia abandonaria o poeta, deixando-o prostrado e sem entusiasmo.
Em Outubro de 68, encontram-se, pela última vez, quando Eugênia sobe ao palco do Teatro São José para, mais uma vez, interpretar o principal papel feminino do “Gonzaga”. “Não quero mais o teu amor”, diz Castro Alves para Eugênia Câmara.
Isolamento, melancolia, tabaco, nuvens de fumo, tuberculose agravada.
Como se isso não fosse o bastante.
Para distrair-se, o poeta passa a caçar perdizes na região do Brás.
Não se sabe que tivesse disparado um tiro sequer, exceto o fatídico.
Dia 11 de novembro de 1868, Castro Alves carregava uma espingarda, quando ocorreu o acidente, Ao saltar uma vala ou um córrego, o poeta tropeçou e ao tentar se firmar na ribanceira, a arma dispara e o tiro acerta-lhe no calcanhar esquerdo. O pé terá de ser amputado.
Durante os meses de convalescença, já separado de Eugênia, o poeta ficou recolhido na casa de um amigo. E a atriz, por sua vez, tentando reabilitar a sua carreira artística, casou-se com o maestro Antônio de Assis Osternold. 
17 de Novembro de 69: Castro Alves, apoiado numa muleta, vai assistir a um espetáculo de Eugênia no Teatro Fénix Dramática. Os dois antigos amantes têm ainda uma troca de palavras.
Daí por diante...

O fim do Don Juan

Castro Alves sempre encontraria o mesmo remédio para os seus males e a sua solidão: o amor! Ainda que manco e doente, continuava a ser o Don Juan de outrora
Superada a dolorosa separação de Eugênia, ele passa a adquirir novas musas inspiradoras, entusiasmando-se por várias mulheres, dentre as quais Leonídia Fraga, a companheira das quietas tardes no sertão.
Apesar do declínio físico, produziu alguns dos seus mais belos versos, animado por um derradeiro amor, platônico, pela soprano italiana Agnese Trinci Murri. A última grande musa do poeta.
Primeiro, o poeta enamorou-se de sua voz e, em seguida, se apaixonaria pela própria cantora. Agnese jamais se renderia aos sentimentos de Castro Alves, ou às poesias e cartas de amor que ele lhe escreveu. Resistiu ao relacionamento amoroso entre ambos.
No dia 29 de junho de 1869, quando ele já se encontrava acamado, Agnese pediria para vê-lo uma última vez. Castro Alves não permitiu a visita.
Diz o jornalista e historiador Paulo Matos:...”Intensa e atribulada a vida amorosa do Poeta dos Escravos, que amou mulheres de todas as classes sociais. Idalina foi a musa de sua adolescência, dos primeiros tempos do Recife; Maria Cândida Garcez era a "estrela transformada em virgem"; Cândida de Campos o "nenúfar sobre o azul do lago"; Eulália Filgueiras, a "visão do céu"; Inês, a "rosa da Espanha"; Leonídia Fraga, pela qual "rosas mudam-se os martírios". E ainda Sinhá Lopes dos Anjos, envolta na garoa paulistana; e as três irmãs judias, fronteiriças à sua casa na Rua do Sodré, em 1866: Simy, Esther e Mary. Para elas escreveu Hebréia, dedicando o poema "à mais bela". Nos últimos meses de vida, apaixonou-se por uma bela cantora lírica italiana, Agnese”... (Paulo Matos, jornalista e historiador).
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Sexta-feira, três e meia da tarde, 6 de julho de 1871. Na casa de número 20 da Rua do Sodré, morria Cecéu, com 24 anos.
Três anos depois, morreria a sua Eugênia, aos 37 anos.  .................................................................................................................
Cecéu e a Dama Negra viveram uma grande história de amor.
Mas, volto à pergunta: Terá sido um tiro acidental ou ciúme de alguém ferido?
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FONTES: 
ALMEIDA, Norlandio Meirelles de. Cronologia de Castro Alves. São Paulo: Editora Pedro II, 1960. 
AMADO, Jorge. A.B.C. de Castro Alves. 26. ed. Rio de Janeiro: Record, 1980.
CALMON, Pedro. Castro Alves: o homem e a obra. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: INL, 1973.
CASTRO Alves, poesias: edição comemorativa dos 150 anos de nascimento de Antônio de Castro Alves. Rio de Janeiro: Odebrecht; São Paulo: Nova Terra Comunicações; Brasília, DF: Fundação Banco do Brasil, 1997.
MATOS, Edilene. Castro Alves no folheto de cordel. [S.n.t.].
VAINSENCHER, Semira Adler - Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco
MATOS, Paulo - jornalista e historiador – in Castro Alves, o poeta libertário.